Blake entrou em casa e viu a porra da pia suja e cheia de potes boiando como um naufrágio.
Devia ser pelo menos a milésima vez que ele via aquela cena diante de seus olhos e ainda assim lhe causava náuseas, ainda mais agora que o estomago de Blake após anos de pedreira, cachaça e outras porcarias começava a reclamar.
Foi à janela acendeu um cigarro, voltou começou a lavar a louça e ouviu Betty no quarto.
Era simplesmente inacreditável ver como os dois viviam.
Detestavam-se era bem verdade, mas tinham os garotos e havia Eleanor numa fase critica de inicio de adolescência.
Blake era um sujeito abjeto e estranho, mas assim mesmo e acima de tudo era um cara responsável pacas.
Prometeu pra si mesmo NUNCA deixar os guris sem a sua referencia, sem a sua presença.
Ouviu dentro de sua mente a voz de Herbie e Geena
“ERA PRA TER ACABADO HÁ TEMPOS, MAS SEGUREI A BARRA ATÉ VOCÊS CRESCEREM” ·...
Seria uma sina? Estaria ele condenado a viver dessa forma até o fim de seus dias? Não soube responder, apenas foi a o quarto e viu os guris dormindo e sentiu-se calmo. Eles eram como uma dopamina pra ele, um pedaço tangível de paraíso.
Levantou os guris uma a um enquanto ela se trocava também e ai, depois, enquanto estavam só os dois é que as coisas se tornavam ainda mais difíceis e insanas.
Ele se via no espelho e sabia que estava acabado e ela fazia questão de lembrá-lo disso sempre que possível e ela também já não era mais nada e ele a lembrava constantemente.
Tinham seus bons momentos e as fodas e até algumas alegrias juntos, mas sabiam intimamente que era como olhar uma vela se apagando.
Ela gritava e não era fácil segurar a barra.
Ele se calava e era difícil restistir.
Deixou o dia correr e se mandou pros treinos,
Ela se fechou em seu canto com seus hobbys e fingiu sorrir.
Blake enfiou o pau no rabo com força e ela tentou escapar. Ele segurou suas pernas com uma chave de jiu. Tocava um Marvin Gaye bem baixinho de fundo no quarto.
Betty sentiu uma certa dor, era com se fosse rasgada, mas assim mesmo era bom.
-Uh...
-Shii..
Blake tampou-lhe a boca com um beijo e seguiu com calma e o troço foi entrando firme como um braço de bomba de óleo flu flub flub.
Foi em frente até que gozaram.
Pelo menos ele gozou.
Ele saiu de dentro e rolou pro lado -Meu Deus! Meu Deus! Blake não sabia exatamente o por quê, nem o que é que DEUS tinha a ver com isso, mas sempre dizia “Meu Deus” Quando gozava.
-Shi...Quer acordar os bebês?
-Uff. Agora era a vez de Betty tapar-lhe a boca.
Ela se levantou foi ao banheiro se limpar e Blake limpou-se no lençol.
Levantou, passou a vista pelo quarto das crianças e depois foi pra cozinha fumar.
Olhou a pia com louça pra lavar, mas não se importou naquele momento.
Depois de uma boa foda as coisas costumam ficar calmas.Voltou pra cama e dormiu de conchas com Betty.
Acordou cedo no outro dia, abriu uma garrafa de vinho pela metade serviu-se de um gole.
Levantou os guris e ficou brincando com eles.
Era feliz demais com aquilo. Era uma hora onde esqueci das contas a pagar e das demais mazelas diárias que nos entopem de merda até os olhos.
Betty cozinhava couve ao molho Branco. Receita de Geena que sempre tratou bem de Blake.
Depois Blake amarrou o sapato dobrado na cama, se levantou chacoalhou os trocados no bolso, as chaves, o cigarro, deu um beijo em cada um dos guris, um em Betty e se mandou pro trabalho.
No caminho, olhava os rabos que passavam na rua e trocava olhares rápidos com os que correspondiam.
Sempre fora um tarado depravado, herança de Herbie talvez, talvez não.
Depois foi a manhã nascendo e ele voltando pra casa e chegando e vendo Betty comendo bombons e lendo revista contigo.
Quando o dia nasce assim e você ainda não deu uma foda, é por que de alguma forma te foderam.
Nessas horas, se olha e se pensa em juízo claro, mas deixa tudo pra lá, esperando que o dia seguinte amanheça com uma cara melhor.
Herbie entrou em casa acompanhado de uma morena baixinha, cabelo franja anos 80 e um belo rabo. Sentaram-se à mesa e tomavam um bom café quando Blake entrou.
-Oi pai! Bom dia...?
-Susan. Então, esse é o Blake?
-É sim.
-Prazer.
-Meu também.
Blake foi pro quarto, ligou a tv e ouviu os risos vindos da sala.
Herbie era um cara legal e merecia uma segunda chance de ter um bom relacionamento.Torcia pra que Geena também encontrasse alguém legal.
Saiu pra rua e a noite estava fria.Sentado na praça viu um casal que não conhecia, mas que tinha mais ou menos sua idade com um gurizinho.
Blake sempre foi louco pro crianças, sempre sonhou com um “blakezinho” andando por ai.
Resolveu dar um passeio qualquer.
Foi até Sta Filomena, pra uma conhecida casa de 20 mangos.
Entrou, olhou algumas garotas já conhecidas, bebeu uma cerveja, mas não quis foder.
Saiu, entrou no carro, acendeu um cigarro, e chegou a uma casa de 200 mangos, mas também não se sentiu atraído à entrar.
Foi pra um velho bar na cidade ao lado e começou a assistir lutas velhas de boxe.
No final de uma delas, uma entrevista com a filha de Ali.
É...
Foi pra casa e ao entrar Herbie havia deixado um bilhete colado na geladeira dizendo que não dormiria em casa.
Deitou-se, tentou dormir, mas foi em vão.
Sentia-se apertado na cama, como se tivesse 3 metros de altura de uma hora pra outra.
No outro dia, ao chegar no trabalho ligou pra Geena.
-Oi mãe! Como vão as coisas?
-Bem, numa boa mesmo.
-Acho que vou dar uma passada ai amanhã.
-Hum...Não vai dar. Vou sair.
-Tudo bem.
-Quero que você venha conhecer o Norman qualquer hora dessas.
-Então meu novo papai chama Norman! Legal! Só espero que o sobrenome não seja Bates.
-Hehehe...Bobo! Não é não. E você filho?Nunca mais viu a Becky? Ou a Millie?
-Millie mudou-se pro interior e a Becky não da mais.
-Hum...
-Bom, no próximo domingo vou ai ver o Bates.
-Não avacalha! Beijo Filhote!
-Beijo mãe.
Blake passou o resto do dia matando tempo no trampo até a hora de sair.
Saiu, passou em casa, tomou um rápido banho e se mandou.
Vagou pela madrugada vadia até acabar a noite com uma puta qualquer de 20 mangos num motel boqueta do centro.
Acordou com uma ressaca braba e ao ir à padaria comprar uma Tonica encontrou Betty.
Betty era magra, baixinha e tinha um rabo empinado e alegre.
Conheceu Betty melhor quando estava fodido com a perna podre e ficavam papeando um pouco enquanto ela cuidava de sua filhinha Eleanor.
Betty, sempre estav com sua cria e isso era bom. Maternidade, algo que supera barreiras e quebra algemas.
-Oi Blake.
-Oi Betty.
-Nossa sua cara ta horrível!
-É assim desde 78, nunca consegui arrumar.
-Tonto!
-É...Noitada e álcool...Acaba com qualquer um.
-Talvez já seja hora de sossegar o facho.
-Pode ser.Até mais.
-Até.
Blake pegou a Tonica, cigarros, aspirinas, chicletes e foi pra casa sentindo o rabo murcho e mole.
Estava ficando velho pra gandaia.
Entrou em casa e se olhou no espelho.
Detestava moedas, freiras, mickey mouse, musica country.
Detestava comida enlatada, festas de natal, musicas de natal, natal.
Cutucava o nariz com o dedão o tempo todo, bebia vinho em garrafão, tinha hemorróidas e frieiras.
Não tinha Deus, não tinha planos, era apenas uma pedra jogada no rio.
Era um cara estranho, bruto e opaco tal qual madeira.
Sua cama parecia menor que na noite anterior.
Herbie entrou com Susan e sorriu pra ele no quarto.
Depois, Mandy, sua irmã, chegou em casa com Billiee os quatro saíram pra uma pizza.
Blake acendeu um baseado e sentou-se sozinho no alto daquele morro naquela manhã cinzenta de outono. Deu um trago, segurou a fumaça no peito e depois soltou junto de um pigarrear.
As coisas estavam estranhas em casa.Parecia quea casaca do ovo se romperia a qualquer momento e as pessoas já não mais se suportariam. Blake já era um cavalo velho o suficiente pra entender o que tava rolando e assimilar o golpe como um bom pugilista, mas assim mesmo, era meio doloroso.
Desceu do morro e foi pra rua. Encontrou alguns camaradas e depois foi pra casa. Tomou banho e foi trabalhar, ao chegar Geena veio falar com ele.
-Blake! Vem cá filho.
-Oi mãe? Que foi?
Blake adorava sua mãe. Sempre foram mais amigos que mãe e filho e sempre se conversaram abertamente.
-To indo embora guri.
-Diabos mulher! Não precisa ser assim!
-Não da mais pra mim.
-Bom...Eu nunca ficaria contra uma vontade tua. Mas não acho que seja o melhor a fazer.
-Eu sei que não, mas é assim que será.
-Ta certo então. Te levo até east side.
-Tudo bem.
Foram ouvindo Minnie Riperton e outras coisas velhas da motown pelo caminho.
-Sabe...Se não fosse por essa motown acho que você não estaria aqui hoje.
-Também acho.
-Não era assim que eu planejei filhote.Espero que você entenda.
-Claro mãe...Claro.
-Já era pra ter acabado há muito tempo, mas eu segurei a barra até vocês crescerem sabe...
-Sei.
-todo começo é bom, mas amarga do meio pro fim.
Chegaram à east side e Blake desceu as malas dela em frente à porta.
Abraçaram-se fortemente e Blake não teve nenhuma vergonha em chorar.
Despediram-se e Blake acelerou rumo ao centro.
Entrou num puteiro mequetrefe e fodeu.
Gozou amargo e grandioso e depois foi pra casa.
Entrou na sala e viu Herbie olhando a janela.
-Oi garoto.
-Oi pai.
-Ela foi embora né? Bem...Diabos...é assim e assim.
-É.
-Sabe garoto, já era pra ter rolado há tempos, mas eu segurei a barra até vocês crescerem.
-Entendo.
Blake gostava muito de Herbie.
Era um homem duro e amargo porem, justo e companheiro.
Tinham muitas brigas isso era bem verdade, mas era um grande cara e acima de tudo um grande pai.
Herbie pegou o cachorro e foi pra rua.
Blake foi à janela, acendeu um cigarro e prometeu-se em silencio nunca passar por isso.
Sempre haveriam os puteiros mequetrefes, os bons, o poker e outras coisas que o livrariam.
Realmente não sei onde errei ou, talvez eu saiba e seja mais confortável dizer que não. Ponderar o imponderável seguir com o palpite louco contra todos os prognósticos, ignorando de uma forma irascível e solene todo o conhecimento angariado por anos de cabeçadas hípicas e outras etílicas e mais algumas banais.
O resultado só poderia ser este. Viola em caco e banca quebrada na aposta placê.
O doloroso não é a volta na chuva com os pés molhados em poças.
O Doloroso é saber dos terceiros envolvidos
Isso Dói pra caralho...
Mas de qualquer forma, resta voltar e tentar encontrar alguma coisa que faça seguir em frente.
Às vezes isso conforta e às vezes, isso se torna uma busca tão frenética e insana que, sinceramente, da vontade de parar e mandar tudo à merda.
MAS HÁ OUTROS QUE PRECISAM DE VOCÊ.
Então, você vai e entra naquele velho salão escuro, conhecido de seus olhos e busca por alguma novidade, mas elas não estão lá.
Apenas o velho ranço, as coisas espalhadas de forma desconexa e aparentemente, deixadas ao léu de forma proposital, apenas pra te deixar ainda mais emputecido.
Então, as mãos percorrem o conteúdo dos bolsos puídos, por anos de sujeira, fuligem e sabe lá deus o que mais e encontra o velho bilhete.
Uma aposta feita contra todos os prognósticos.
Uma aposta no azarão tentando, em vão lançar-se ao céu em um só salto.
Uma aposta que só poderia dar em merda.
Agora, é banheiro, cigarro e uma música pra ouvir.
Olhar as pernas e saber que ainda resta força pra levantar, sacudir a poeira e seguir em frente.
Contra todos os prognósticos e vencer.
Só por saber que você ainda tem algo que vale a pena pra mostrar.
Acordei, levantei da cama, acendi um cigarro e depois sai pra rua. Era um dia claro e ameno de outono. Fernando Henrique Cardoso era o presidente do Brasil na época.
Abri minha caixa de correio e havia muita porcaria que joguei fora sem ao menos me importar. Contas, artigos de oficina e outras coisas, que devido ao meu estado físico prejudicado em razão de uma cirurgia de joelho não me eram interessantes no momento, mas uma me chamou a atenção.
Era de uma leitora de meus contos. Chamava-se Vera e eramesmo uma boa cara.
Trocamos correspondências e telefonemas. Sua voz era grossa e um pouco rouca, mas tinha uma timidez sexy e atraente. Era corpulenta, mas não chegava a gorda. Uma campeã dos meio pesados. Seios grandes e redondos e um cabelo negro como a noite.
Por fim, acabou acontecendo de uma forma qualquer.
Marcamos um encontro.
É claro que seria uma coisa normal e tal, mas algo não me cheirava bem e tempos depois eu iria descobrir.
Nos encontramos num bar meia classe em west zone.
Ela chegou linda e por mais incrível que possa parecer estava interessada em mim em essência.
Talvez um prazer pelos bêbados e derrotados, quem sabe.
Eu dirigia um velho italiano vermelho que vira e mexe me pregava peças e ela chegou a bordo de um francês zero quilômetro.
Conversamos e era um papo agradável.
Disse-me ter acabado de sair da faculdade e cursara artes cênicas em uma faculdade cujo valor da mensalidade poderia pagar todo o meu ano.
Senti como se perdesse ali, uns 20 cm de altura.
Olhei pro meu carro e o dela e mais 10 cm me deixaram...
Minhas roupas puídas e gastas, contrastavam com as dela, importadas de algum quinto dos infernos indianos de Bali.
Trocamos um beijo e depois outro e comecei a beber um scotch enquanto ela tomava um suco de grapefruit.
Na hora de se despedir entrei em meu carro e ela no dela.
Rumei pra east side sentido o banco do carro estranho. Parei num semáforo e coloquei-o mais à frente.
Dias depois ela me ligou e que fosse até sua casa.
Quando ela me deu o endereço senti que mais ou menos uns 50 cm de altura me deixavam, mas assim mesmo me sentei na velha jabiraca e me mandei pra lá.
Ajeitei o banco mais à frente novamente. Estava realmente diminuindo.
Quando cheguei era um GRANDE condomínio de luxo. Fui barrado na entrada por um segurança brutamontes e com cara de estúpido, mas com um corte de cabelo da moda.
Falei meu nome e aguardei
Aguardei...
Aguardei...
Até que ela apareceu.
Pediu que eu entrasse, mas quando olhei a grande alameda com cactos importados lá do cu das florestas peruanas, senti que estava ainda menor e não pude.
-Vera.
-Sim Cliff.
-Olha, eu te acho uma mulher fantástica, mas acho melhor pararmos isso por aqui.
-Por que?
-Você pertence a um mundo que eu não conheço e não tenho ticket pra entrar.Esse lance pobretão na alta roda só da certo em Hollywood.
-Isso não tem nada a ver.
-Tem sim. Adoraria ficar com você, realmente, mas não dá.
-A gente ainda se fala?
-Sim.
Olhei pra trás e vi o grande portão se fechar e seu vulto sumir.
Tentei entrar no carro, mas não consegui.
Estava medindo cerca de 30 cm de altura.
Corri pela alameda vendo tudo extremamente enorme, como era na verdade.
Imaginei o futuro. Eu sentado em uma larga mesa de jantar e enquanto Vera e família mostravam os diplomas eu não tinha nada além de uma rola preta, dividas, grilos e uma cuca fundida.
Vi um bar e entrei.
Ninguém me notava.
Esbarrei numa garrafa de cerveja que quase me matou ao cair sobre mim.
O liquido me banhou e ganhei uns 20 cm.
Dei um gole, lambendo o balcão como um cachorro faminto e consegui um pouco mais de tamanho.
Vários goles após, eu já era dono de meu um metro e oitenta novamente.
Entrei no carro e dirigi até uma velha avenida já cantada na década de 60.
De volta pra minha altura normal, meu mundo normal, minha vida normal.
Já tinha uma boa pancada de dias que Blake evitava a maquina de escrever como se ela fosse feita de algum tipo de câncer, algo visceral e maquiavélico comouma chaga infernal.
Estranho. Blake sempre gostou de escrever. Na verdade, era uma das únicas coisas que ele conseguia fazer com alguma decência na porra da vida, mas naqueles últimos dias ele fugira dela.
Falta de inspiração, uma grande maratona de cinema e cansaço e seu respeito pela máquina era tão grande que ele não gostaria de sentar-se junto a ela de cabeça vazia.
Acabou acontecendo assim, numa manhã qualquer de agosto. Ele se olhou no espelho e percebeu o quanto estava velho. Não que isso fosse uma surpresa pra ele, mas naquele momento tudo lhe pareceu ainda mais claro que de costume.
O copo com scoth deposto sobre a mesa, e o barulho vindo do quarto...Foram como uma bala no peito.
Que porra havia ele se tornado?
Será que o velho caubói só esperava pela ultima bala pra ser mandado pro inferno e descansar sua torturada alma em paz?
Será que era isso mesmo o que tinha guardado pra si?
Não soube responder uma velha pergunta que já se havia feito inúmeras vezes antes.
Algumas pessoas subiam e sumiam de sua vista e agora, quando o olhavam, era como se vissem um exótico animal.
Ele nem dava mais a mínima. Nem valia a pena.
A brasa do cigarro queimou-lhe o dedo e ele acordou.
Pelo menos ainda era capaz de sentir dor, o que era algo bom.
Foi ao quarto e olhou. Ouviu o som do despertador que pra ela não era nada.
Voltou à sala e ligou o radio.
A musica começou a tocar e não restou nada a fazer alem de chorar.
Levantei vesti minhas calças, abaixei pra amarrar os sapatos e pensei “DEUS TODO-PODERES O QUÊ MAIS AGORA?” Sai correndo pro banheiro e vomitei.
Depois, escovei os dentes e vomitei de novo e pronto. Era isso.Sempre foi assim.
Liguei o radio e a voz de Greg Dulli me chegou aos ouvidos, mostrando que as coisas poderiam ser, ao menos, embaladas por uma boa trilha sonora.
Cruzei a avenida, peguei o ônibus e cheguei ao centro.
O dia amanhecera claro e ameno, mas isso, sinceramente, não me valia de porra nenhuma.
Entrei, sentei no canto mais escuro do refeitório e mastiguei um pão que mais parecia um pneu de trator.
Sai, acendi um cigarro e Molly veio falar comigo.
-E ai Cliff. Ta preparado.
-To nada, não me liguei nesse lance, mas vou até lá pra ver no que dá.
-O Sam ta só o bagaço. Também ta desanimado com isso.
-É...Pra gente não é fácil. Bom, eu vou tomar alguma coisa antes pra acalmar os nervos.
-Não vá chamar o Sam!
-Não vou, fica tranqüila.
-Sabe, você e o Clyde são caras legais mas...
-Não somos boas companhia.
-É quase isso.
-Você ta certa mulher.
-Boa sorte Cliff.
-Vou precisar garota.
Molly era uma boa mulher e cuidava bem de Sam. Ele tinha sorte por isso.
Precisava matar um pouco de tempo e fiz a ÚNICA coisa com sentido.
Fui até o bar mais próximo, e enquanto Dereck Milss tomava uma vitamina entornei dois scoths com água.
-Caramba Cliff! Logo cedo?
-Pra mim é tarde, to virado, e no mais é bom pra acalmar os nervos.
-Pode ser, mas não é a minha. Vem que eu te dou uma carona.
-Valeu cara.
Rumamos seguindo o Sol e chegamos ao tal local.
Um monte de pessoas, rostos e mais rostos.A maioria me causava náuseas.
Subi a rampa e bati um papo rápido com Mike e Roger.
Ambos pareciam calmos e lívidos. Eram boas almas. Tinham alguma chance.
Depois foi descer as escadas e entrar em fila.
Neste trajeto, cruzei com uma garota que conversei apenas uma vez na porra da vida e foi o suficiente pra criar ódio mutuo.
Mulheres. Simplesmente não dou sorte com elas.
Encontrei meu lugar junto à cadeira com meu nome e sentei.
Comecei como de costume e a velha sensação de confusão mental, desperdiço de tempo e alma me consumiu.
De certa foram não fazia muito sentido estar ali. Talvez se tivesse ficado em casa seria melhor ou, se tivesse parado no puteiro da esquina e tivesse torrado alguns nickeys dando lambadas numa loura oxigenada fosse melhor, mas aquilo valia uma melhora de quase 700 pratas nos ganhos e isso era um bom motivo pra estar ali.
Senti minha vida pendurada num gancho, como sempre esteve. Minha alma a perigo. Com a grana viria o convívio com mais gente que me detestava e que eu execrava feito merda.
Pensei nisso e me senti melhor e deixei que as vagas lembranças me guiassem pelo papel.
Com da primeira vez, não tive sorte, mas fui em frente assim mesmo.
No fim, escrevi um texto que considerei bom. Muito longe do que eu gostaria, mas era o Maximo que se podia fazer ali.
Caminhei pela alameda e segui até o ponto. O sol batia forte e minha garganta estava seca feito areia.
Cheguei no ponto e encontrei Sam.
-E ai meu velho! Com foi?
-A mesma merda da outra vez Cliff, mas que vá tudo a merda! Ta um calor do inferno.
-Isso pede uma gelada.
-É claro.
Desembarcamos no primeiro bar descente que encontramos aberto no domingo e brindamos a cerveja que era aberta por uma garçonete de rabo grande.
-Bom, é isso e isso Cliff.
-Cara, sinceramente não ligo pro que vai dar...Sabe não é como ter uma perna amputada se perder essa...Da primeira vez doeu, mas agora não faz mais tanta falta.
-Tem gente que se não conseguir vai acabar arrancando os braços.
-Sei disso e é foda.
A garçonete voltou trazendo um bom par de seios pra se olhar naquela manhã.
É claro que era tudo loucura, é claro que sabia que era um peixe-piolho na carcaça da humanidade, mas sabíamos nosso lugar no mundo e isso era uma dádiva dos deuses, é claro que muitas pessoas só veriam o que gostariam de ver e espinafrar e falar sobre nossas cabeças e é claro que estaríamos ali, dando um eterno FODA-SE pra toda aquela baboseira.
Sorrimos, praguejamos, e vivemos aquele momento de homens livres numa manhã com o Sol sobre nossas cabeças sem julgar erros, acertos ou nada.
Coisas assim são pra viver, momentos assim, são pra curtir e se você encontrar 10 bons parceiros de copo em sua vida, se dê por satisfeito.
Continuei ali, com meu cigarro pendurado na boca, os olhos reduzidos a fendas, emoldurados por óculos escuros cafonas, mas que me faziam bem.
-Hey Sam! Você viu que rabo dessa garçonete?
-Porra! Será que não da pra ver nada alem disso?
-Tenho medo. O resto geralmente é problema.
Sorri pra garçonete na hora de pagar a conta e ela sorriu de volta.
Blake entrou pela porta grande de vidro, dirigiu-se à mesinha de lado, pegou um copo e serviu-se de café. Era uma noite besta e sem lua, como muitas que já vivera em sua vida.
Amelle sentou-se ao seu lado e começou a falar. Amelle sempre falava, falava, falava...Falava pra caralho, fofocava como do demônio num programa de tv.
-Hey Blake! Soube da Becky?
-Não.
-Ela esta grávida.
-Não tenho nada a ver com isso.
-Claro que não! Agora ela esta casada com um musico!
-Que bom pra ela.
-Achei que você gostaria de saber.
-Diabos mulher, eu não tenho nada com isso.
-Mas vocês passaram tanto tempo juntos...
-Passado. Eu era outra pessoa, ela também.
-Ta bom! Não precisa se irritar.
-Não estou irritado. Só não tenho nada com isso.
-Achei que vocês ficariam juntos.
-Mas não ficamos.
-Por que?
-Diabos! Sabe-se lá Deus o porquê.
-Vocês formavam um casal estranho.
-Eu sou estranho.
-Ela esta casada com um musico.
-Que bom! Tomara que ele toque canções de ninar pro bebê.
-Achei que vocês ficariam juntos.
-Mas não ficamos.
-É.
-É...Adeus Amelle.
-Adeus. Não fique irritado.
-Já disse. Não to irritado. Fico feliz por ela, espero que ele seja um cara legal.
-Espero que ele não seja um beberrão como você.
-Eu também.
Blake não estava irritado e isso era verdade, mas as pessoas sempre falam de mais sobre assuntos que não tem nada a ver e isso era realmente irritante.
Blake levantou, depôs o copo de café na pia, lavou-o e depois foi pra rua.
Entrou no carro e por mias que não fizesse o menor sentido começou a pensar no assunto.
Becky e Blake viveram uns tempos juntos. Entre idas e vindas foram uns bons anos. Becky era uma ótima foda e ainda mais um bom papo. Tinha um bom gosto musical e lia Asimov. Mas, de uma foram ou de outra entre essas idas e vindas Blake sempre acabava se machucando.
Conheceram-se de uma forma estranha e sem nexo, como todas as passagens dele.
Ela era uma sonhadora, o mundo parecia ser mesmo um lugar fantástico enquanto Blake...Bem, Blake era uma pedra bruta e opaca.Um sujeito realista demais pro fantasioso mundo de Becky.
Becky agora seria mãe e Blake não era o pai e vinham contar isso pra ele.
O pai era um musico como disseram e Blake ainda escrevia seus contos
Talvez, alguns imaginassem que os dois ficariam juntos, mas Becky havia chutado o rabo bêbado de Blake no momento mais cruel de sua vida e mais que os bons momentos Blake se lembraria disso pra sempre.
Por fim, numa briga besta qualquer, onde Blake poderia ter baixado a guarda ou ela baixado a dela as coisas se acalmariam, mas não foi assim e o tempo passou.
Blake sempre fez as coisas do seu jeito e nunca se arrependeu disso e assim essa história se perdeu no tempo.
Nos primórdios, Blake escrevera muitos textos pra ela. Alguns de amor e outros de ódio. Agora era esse.
Desejando uma boa sorte em seu caminho e um fraterno Adeus.
De todas as coisas sem sentido que já aconteceram na minha vida essa foi uma que mereceu atenção especial e uma menção honrosa.
Não sei como e, por favor, não me pergunte por que me colocaram junto daquele pessoal.
De início, É CLARO que fiquei temeroso.Eu só havia visto isso funcionar nos seriados da tv e no cinema, mas aqui era REAL.
Fui colocado pra passar alguns dias junto de Cindy St Tropes, Scott Bunkertoon e Molly Walsh enfim, toda a alta classe daquele local.
Eu conhecia Scott vagamente e sabia que ele era uma fraude. Ele morava próximo a mim e era um fodido em regra, porém Scott tinha um bom sobrenome e tinha certa classe embora, eu sabia BEM que porra ele era.Um tarado completo e, mesmo que não conseguisse nada, era sempre bom trabalhar com uma mulher como Cindy ao lado.
Cindy era o que podemos chamar de um carnão. Alta, magra, esguia feito cobra, um shape 6’11 Town & Country. Scott lançava as tentativas mais fajutas desde a reeleição de Bush filho, tentando saborear aquela fineza.
Eu estava sentado no banco de trás e via os longos cabelos de Cindy presos em rabo de cavalo, suas ancas firmes e, ficava de pau duro como qualquer imbecil.
-Soube que você escreve Cliff.
-É...Eu rabisco algumas coisas.
-Disseram que você fala muito sobre mulheres.
-Sim. Não da pra escrever sobre hidrantes ou tinteiros vazios.
-Heheeh, vou dar uma olhada. Se eu gostar vou querer uma história minha.
-Tudo bem, mas não me culpe pelo resultado. Talvez eu escreva “The ballad of Scott & Cindy” como uma versão da musica dos Beatles.
-Eu fui ao Cavern Club quando estive pela Europa.
-Aposto que sim.
Paramos pra comer num bom lugar. Olhei pros lados e vi as pessoas. Eu era um peixe fora d’agua. Mal sabia segurar um talher. De repente um outro carro para e vejo Molly Walsh saltar sorrindo e ao lado estava Sam.
-Ola Cliff.
-Ola Molly.
-Cliff! Seu negro safado.
-Sam! É por isso que você sumiu! Ta andando na alta agora.
-Não tem nada a ver, só acabou acontecendo de vir parar aqui.
-Olha cara, isso é bacana e tudo, mas não é a nossa. Isso é a hype e agente não passa de um bando de pinguços falidos.
-Nós temos ALMA Cliff.
De repente achei que Will Smith iria entrar pela porta ao lado do primo Carlton. Deu a louca em Bel Air e os vagabundos chegavam até ali, trazendo suas gingas e suas histórias malucas de bebedeira e glória.
Scott pintou com um sorriso depravado e maluco.
-Cara, a Cindy é mesmo muito gostosa.
-E Disso quem não sabe porra!! Mas não é pra gente. É claro que todo vagabundo pé quebrado que nem a gente sonha com isso, mas ela é uma garota tipo comercial de cigarro carlton, com uma praia e uma xícara de chá. Com essa tua cara de tarado delinqüente juvenil as coisas ficam difíceis.
-E você tem uma puta cara de bebum, mas conta boas histórias.
-Mas nem sonho, fico na minha de pau duro na mão.
-Essa merda dessa trolha de meio metro.
-Meio metro, mas não paga restaurante nem corrida de táxi.
-Eu tou dando duro nisso, acho que tenho uma chance.
-Olha Scott, você é um cara bacana e tal, mas não é um Gentleman.
-Que nada.
E assim, seguiram-se os dias, e pra falar a verdade eram pessoas legais e espirituosas.
Quando o inverno chegou, eles se mandaram pra Malibu e Sam, perdeu seu lugar ao Sol junto ao mundo hype.
Voltamos pro nosso canto fodido e bêbado pelas ruas noturnas do centro.
Scott continuou ali, mas acho que ainda esta tentando alguma coisa sem sucesso.
Dei uma longa e demorada cagada, depois sai e olhei pro pátio. Devia haver umas 50 pessoas lá e eu não me dava bem com nenhuma delas e a GRANDE maioria delas simplesmente me detestava, porém eu precisava matar duas horas e meia e era de manhã e era difícil matar as horas enquanto os bares não estão abertos.
Atravessei a rua, subi a alameda e cruzei a mureta baixa, e bati na porta.
Era um escritório pequeno e aconchegante e lá trabalhavam duas pessoas realmente bacanas.
Jerome era um negro velho, mas que aparentava muito mais jovialidade que a maioria dos garotos por ai. Sempre sabia das coisas, sempre tinha uma opinião pra dar a respeito de qualquer assunto. Chamava a todos de “Young man” e tinha um ar austero e puro.
Sua companheira de trabalho era Tina.
Tina era uma menina com cara de maluca e um papo agradável e meio avoado. Tinha um zilhão de idéias na cabeça ao mesmo tempo e fumava como uma chaminé.
Tina era casada com Boris.Boris era um velho texano de pele vermelha. Boris era um cara sortudo. Tina era bonita e tinha um corpaço.
-Cliff my Young man! Como vai?
-Levando Jerome. Precisava matar umas duas horas e vim ver se dava pra ficar aqui.
Tina estava arrumando os cabelos no espelho e se virou mostrando que a forma ainda era das melhores.
-Cliff! Que bom te ver. Você andava sumido.
-É gatinha...Uma correria dos infernos. Tenho trabalhado feito um camelo. E o Boris como está?
-Velho e ranzinza como sempre.
-O Boris é um mesmo um velho pimentão sortudo. Você esta ótima Tina.
-Obrigado Cliff! Vou fazer um café.
Tina foi fazer um café enquanto eu descalçava as botas e me recostava no sofá.
Jerome folheava o jornal e a manhã seguia fria.
--Então Cliff. Fiquei sabendo do lance do concurso.
-É meu velho. Arrebentaram-me na nota da redação. Nunca fui bem quisto, mas não me sabia assim tão odiado.
-Acho que você, bem te vêem como um perigo.
-Sei lámeu caro, só sei que me arrebentaram no meio, assim, sem massagem...Mas pra merda tudo isso. Dei graças a Deus por vocês estarem aqui hoje.
-Por que?
-preciso esperar um tempo e simplesmente não conseguiria ficar por duas horas naquele lugar. Geralmente mato o tempo bebendo feito um gambá, mas ta cedo demais pra isso então, se não fossem vocês eu estaria andando pela rua feito o “kung-Fu”.
-Ou feito o Hulk depois que rasgasse a camisa. Ta aqui o café Cliff!
-Obrigado Tina.
-Então quer dizer que a cachaça esta em primeiro lugar e a gente é a sobra seu nego safado.
-Não é isso baby, mas sabe como é...A cachaça a gente sempre pode achar, gente como vocês são umas agulhas no palheiro.
-Fico feliz em saber disso Young man.
-Sabe cara, eu não me dou muito bem com as pessoas num espectro geral. Quando vejo as que me dou, ou são gênios ou são totalmente birutas. E você sabe tantas coisas que poderia muito bem morar dentro de um lâmpada meu velho.
-E eu?
-Você é uma gatinha biruta e muito bacana. E o Tez? Com vai o garoto?
-Terrível. Os seus vão crescer também.
-Eu sei disso.
Olhei no relógio, e vi que já eram oito e meia. Junto de pessoas bacanas, a hora corre rápido como um jaguar.
Me despedi e caminhei solitário como de costume pra encontrar minha esposa e resolver as burocracias infernais que travam o mundo.
Blake entrou pela porta de ferro, subiu a longa escada, cruzou a catraca, foi ao fundo do salão, pendurou o saco tão surrado quanto a sua própria cara carcomida pelos anos de trabalho noturno, loucura e alucinação na girafa de madeira e foi pro seu canto.
-E ai Dereck!
-E ai Blake.
Derek era o cara que chefiava aquele lugar. Era um cara bacana.
O lugar estava cheio de jovens. Blake era o cara mais velho do recinto, porém era durão. 105 kg e forte como um nelore.
Blake foi até o canto vazio e começou a se excercitar tentando, pelo menos naquelas duas horas, esquecer de tudo.
Era uma coisa engraçada. O mesmo cara que levantava grandes quantias de peso numa boa, de pescoço taurino e expressão rude, era na verdade a porra de um beberrão indizivel.
De repente Derek chega perto e diz.
-Ei Blake! Vai ter uma boa aula agora na sala ao lado. Por que você não vai até lá.
-Pra mim não rola cara. Ta só a gurizada, vou passar o maior carão.
-Vai nada, tu é um cara durão.
Blake já tinha desistido da idéia quando uma jovem passou por ele.
Devia medir um metro e meio mas que METRO E MEIO!!!
Diabos! Era uma maquina de deixar homem louco!
Seios duros como rocha, um rabo empinado e firme que fazia retaguarda pra uma xota grande e saltada, emoldurada por um colant azul.
-E ai grandão? Vai encarar a aula?
A voz grasnava feito um pato, mas...FODA-SE ela não era uma cantora dos Supremes!
-Vou! Pega leve comigo hein! Sou velho demais pra essas coisas.
Entraram umas 10 pessoas na sala, todos jovens e vistosos, exceto ele. Juventude, força e vitalidade. Sonhos que se desfarão ante as marretadas do matadouro da existência.
Sentiu certa inveja deles.
Ela mandou que todos pegassem enormes bolas de plastico.
Blake pegou a sua e estirou-se num colchonete.
Daí tudo começou.
Ele sempre fora um desastrado completo.Quase caiu umas duas ou três vezes, parte da falta de equilibrio gerada pela idade e pelo alcool.
Resistiu até onde pode e depois cedeu.
Levantou-se bravamente e conseguiu chegar à segunda etapa.
Quando pensava em desistir percebeu que ainda valia a pena.
A tal instrutora fez um movinto estranho que mais lembrava a uma foda. Então uma lapa de seio começou a correr marotamente pra fora do colant.
Seria prudente desviar o olhar e esquecer mas... ORA! QUE VÁ TUDO A MERDA!Pensou e ficou ali fingindo ser um alteta e olhando aqueles peitos e rezando, olhando uma pequena auréola que teimava em escapar enquanto fingia ser um pessoa decente e calma e rezando, sendo premiado com aquela visão de um bico na manhã fria de junho enquanto fingia que era tudo uma puta de uma casualidade e rezando.
Rezando pra que aquela sorte durasse um pouco mais.
Rezando pra que toda a merda do mundo escoasse por debaixo de seus pés rumo ao esgoto dos infernos.
Rezando pra que essas palavras no papel fizessem algum sentido...
Por fim, tudo acabou.
A garota se dirigiu até ele.
-E ai? Como foi?
-Bom, vou precisar de uns 3 dias de bebedeira pra me recuperar disso aqui.
-Você tem problemas com bebida?
-Não, tenho probelmas é com um monte de coisas, a bebida ajuda a destilar.
-Semana que vem tem mais.
-Talvez eu venha.
-Até.
-Até.
Blake voltou pro salão, ergueu seus pesos homéricos e depois saiu pro Sol gelado de inverno sem garota linda, sem sorte, sem bico de peito.
Apenas uma garrafa, um cigarro e algumas linhas pra por no papel.
Rezando pra que a fraude que sempre foi, nunca se dissipasse em sonhos de grandeza.
Jake dirigia numa noite fria e eu estava sentado no banco de trás. Havia sido rebaixado naquela noite e quem encaminhava as coisas era David Mars.
O telefone tocou no meu bolso e atendi.
-Me deram uma rasteira!
-Filhos das putas sacanas!!! Eles jogam sujo mesmo.
-Bati de frente...Sabe como é. Disseram que eu precisava ser VIGIADO.
-Diabos homem! Mas você nem bateu boca?
-Bati, mas você sabe. Não vale de muito.
-Tem uma galera reunida no centro falando sobre esses lances. Vou ligar pro Lazy Bob e avisar sobre isso.
-Beleza.
-Cara, eu sinto muito.
-Seu eu fosse você parava de escrever. Vão acabar te pegando também.
-É...Às vezes eu penso nisso.
-Te cuida.
-Tu também.
Desliguei o telefone e olhei pra noite. Manter os seus bagos pendurados ao pau estava ficando cada vez mais difícil.
Ou você entregava os culhões de mão beijada ao açougueiro era caçado feito rato por gato de rua.
No centro uma parte das pessoas gritava e reclamava contra tudo aquilo. Até tentei ficar mas era impossível. NÃO ADIANTA você falar com um cara que é sacana por natureza.
Jake parou o carro, desci, tomei um gole d’água e acendi um cigarro.
Estou com essa a-a-a-a-ATCHIM!!! Porra dessa gripe a dias e simplesmente ela não passa.
Já tentei remédio, injeção, conhaque com mel e nada. Ela fica ali parada feito um pôster brega em quarto de empregada doméstica.
Desço do ônibus com o nariz entupido feito fossa mau feita, cruzo o jardinzinho e entro.
-Cliff! Que cara horrível!
-É azim desde 78 Procol. Dão dem jeido de melho-a-a Atchim!!!
-To falando da gripe.
-É besbo uma berda! Dá as javes.
-Toma. E vê se melhora.
Aceno com as mãos e quando estou saindo sinto uma massa se formar. Pego o papel no bolso levo até o meio da minha cara e SLOSHBLERGH!!!! Taquei aquela maçaroca de excrementos no papel.
Seria o mais sensato ir pra casa, deitar no sofá, me cobrir com uma manta paraíba e assistir filmes e ficar pedindo babo, dengo tomando sopa, mas as contas chegavam no dia 15 e eu tinha que dar um jeito de pagá-las e como era no meu kengo elas iriam cair, o jeito foi arrastar meu rabo morto de defunto gripado até o carro e encarar a realidade dura do dia-a-dia e seguir em frente.
Phil me olhou e arregalou seus olhos.
-Caralho cara! Você ta fodido mesmo hein?
-To.
Continuei pela noite fria, tremendo feito um vibrador ligado no 220 tentando me manter são pra depois espirrar as palavras no papel e entrega-las a você que lê.
Estava sentado vendo tv num domingo estúpido e chuvoso quando ouvi o som do sinal.
Levantei, acendi um cigarro e desci a rampinha, abri o portão e Chris Horse entrou.
Cris era uma cara na dele. Tinha ganhado aquela porra daquele cargo de chefe e tentava tocar o barco da melhor maneira possível. Isso se traduzia em arrancar o nosso couro com certa graça e elegância o que, convenhamos, era uma benção, visto como as coisas vinham andando ultimamente.
-E ai Cliff? Como vão as coisas por ai? -Tranqüilas cara...Bem tranqüilas.
-Bom. To com um documento aqui cara...Pra você.
Estiquei a mão, li as linhas corridas pelo papel.
-Bem, então é isso e isso Chris.
Voltei pro meu canto com cara de convocado omisso e burro. Peguei minha meia dúzia de trecos e porcariadas (Caramba! A pobreza é mesmo uma merda!!! As coisas que você possui são mesmoda PIOR qualidade possível).
Na tv um desses programas estúpidos onde uma gostosa peituda mostra palavras pra serem acertadas numa tela piscante passava.
Senti o couro macio do sofá pela ultima vez.
O Sol Nasceu e fui embora esperando que o regresso não fosse mesmo tão ruim.
Liguei a tv e vi o lance de Realengo. Merda! Até crime agora a gente importa! Junto com tênis, celular, pasta de dente, vibrador, café solúvel, videogame...
Na hora lembrei de quando eu estava no jardim da infância.
Encenaram uma peça do lobo mau e chapeuzinho vermelho.
Na minha classe tinha um garoto chamado Samuel. O Samuca.
O Samuca não falava com quase ninguém. Ele era um garoto gordo, com uma baita de uma cara de bolacha de maisena.A nossa professora chamava-se Susy. No tempo, eu a achava uma “moça bonita” e muito bacana com meu pai.
Hoje, vinte e tantos anos depois, percebo que ela era uma baita de uma gostosa coxuda e que provavelmente meu velho estava tentando fodê-la. Talvez ele tenha conseguido, talvez não.
Mas voltando à vaca fria...O Samuel era meio lerdão. Talvez tivesse problemas mentais, talvez viesse só de uma familia complicada, talvez...Só sei que na porra da peça Eu fui o lobo mau, (Como de costume, imitando a tv, o preto tem que fazer o papel do vilão) A Fabiana que era uma menina bonitinha foi a chapeuzinho e o Samuel...Bem, o Samuel foi a arvore.
Claro, todo mundo aloprava o Samuel. E depois eu fui pra outra escola, e tinha sempre um cara que era aloprado. Não sei se esse cara podia ter sae tornado um louco e pegar a porra de uma uzi e sair metralhando as pessoas em sua escola.
Mas agora aconteceu aqui e ta todo mundo de cara.
A verdade é que somos criados numa sociedade cruel com as diferenças. Eu fui o único preto da minha escola na infância e sei como é isso.
No fim das contas fiquei com dó do atirador de realengo como foi o nome que a imprensa resolveu dar pro caso. Uma mente perturbada e confusa que acabou fazendo uma baita de uma merda.
Poderia ser o Samuel...
Poderia ser o Cri-Cri...
Poderia ser o Charles Tragédia...
Desde o começo desse ano que muita gente boa e próxima tem morrido. De forma, rápida e assustadora. Às vezes sinto que a dama da foice tem me cercado recentemente, como um predador pronto pra dar o bote.
Se for, que seja.
Desligo a tv, ligo o tocador de musicas do Celular e coloco uma musica boa pra tocar.
Saio pras ruas.
Talvez o Samuca esteja lá atrás de uma arvore, com um oitão na mão me culpando por ter sido o lobo mau.
Jason não era meu amigo.A bem da verdade eu o achava um chato de galochas. Só havia trocado idéia uma vez e nessa data discutimos. Mas a morte chega pra todos. Pros que estão preparados e pros que não estão.
Costumo trazer comigo um pensamento que uma vez li num livro.
“Levo a morte comigo dentro do meu bolso do paletó. As vezes tiro ela do bolso, arremesso na parede e depois que ela quica marotamente, a olho e digo. Tudo bem gata, quando vier me buscar estarei preparado”.
A morte em si não importa tanto. O que importa é a vida que levamos até sua chegada.
Muitos estão por ai, cagando em suas vidas, passando por cima preocupados demais com o preço do pão ou buscando incessantemente descobrir quantos quilômetros de rodagem se faz com um litro de gasolina.
Não que eu não me preocupe com as contas pra pagar. Longe disso. Já perdi o sono varias vezes me preocupando com os assuntos diários, mas procuro fazer as coisas que alimentam ao menos minha alma enquanto estou por aqui.
Imaginei o mundo com a minha morte. O cara de óculos ainda estaria vendendo pães na gôndola do mercado, mas eu não estaria lá.Seria um outro imbecil qualquer.Escritores marginais continuariam a escrever, a pagina continuaria a ser preenchida com idéias, mas as minhas não.Sentiria falta disso.Os guris se tornando grandes homens...Meu Deus...Isso seria de uma falta incrível... Fariam de mim muito mais legal, corajoso, bonito e forte do que eu jamais fui.É natural, a raça humana sempre exagera em tudo.Seus heróis, seus medos, suas virtudes.E então em descobririam, finalmente eu conseguiria minha editora e me pendurariam em fétidos postes de luz. Merda...Merda.
Só rezo que não façam a besteira de colocar minhas roupas sobre uma cama.
Parece que toda a personalidade de uma pessoa fica nas suas roupas.
Experimente colocar as peças em forma sobre uma cama. É simplesmente enlouquecedor.
Gostaria sinceramente que no meu funeral só aqueles que realmente tiveram algo em vida, que realmente gostaram aparecessem.
Detesto bajulação barata.
Mas sabia que não seria assim. Sempre haveria gente de fora, querendo por motivos sociais nefastos comparecer.
A sala não continha mais de vinte pessoas. Ao centro 3 garotões bronzeados de Sol conversavam com os rostos lívidos porem aparentando calma e classe. Uma meia dúzia de senhores com caras de bebuns adentraram calmamente o salão. Traziam nas mãos um envelope de papel pardo com algo que certamente era um vidro de moscatel.
Uma senhora de seus 50 e poucos anos junto de uma jovem de seus 30 juntavam-se aos bronzeados e os bêbados.
-Oi Jamal. Como esta?
-É Sam...é algo que a gente sabe que vai acontecer mas não espera. No fim, ele sempre levou isso numa boa.
-Vocês vão fazer aquele lance da doação?
-Sim. O velho merecia ter seus desejos atendidos.
Jamal, Henry e Mick eram mesmo uns garotões bonitos. Tinham se tornadohomens talvez antes do tempo muito pelo pai que agora velavam.
Sua Mãe, Betty, juntou-se a eles com a irmã Millie.
Mick então começou retirou de um dos bolsos um pedaço de papel.
“Se nalgum canto além deste salão, em cima ou embaixo houver um bar, acredito que ele esteja sentado ouvindo Alguma musica boa e olhando rabos que passam e fumando como um porco louco.
Talvez ele esteja impaciente com a demora disso tudo e esteja dizendo que “Essa porra ta cheia de onda demais” E que ele só ta cansado de tudo.
Talvez ele esteja chorando com quando via os filmes que gostava. Talvez esteja confuso e vendo que foi tudo diferente do que ele pensava ou cria...
Mas com certeza, esse velho safado esta pedindo apenas que não choremos e que lembremos dele bebendo, rindo, fodendo, escrevendo suas palavras feito bala no papel, sabendo que o cara de óculos ainda estaria vendendo pães na gôndola do mercado, mas ele não estaria lá.Seria um outro imbecil qualquer.Todas as coisas continuaram a andar, a única diferença é que ele não estará lá, e que os guris tornaram-se homens muito com a sua ajuda...
Obrigado pelo preparo deixado, obrigado por todos esses anos...
Vai nessa meu velho
Meu amigo
Meu pai”
Dobrou o papel em quatro pedaços simétricos e carinhosamente depositou sobre o ataúde.
O irmão mais velho e o gêmeo e a irmã se uniram. O moscatel passou de bico em bico até chegar junto ao papel e uma camisa de um clube de futebol, alguns cds e livros.
A musica começa tocar no momento certo.
As mãos levantam o troço e caminham calmas rumo ao destino previamente traçado, cientes que todo campeão tem seu dia de queda.
É que ele vinha numa correria doida pela rua e ainda conseguiu tempo pra ler a manchete de jornal que destacava uma vitória do time de futebol pra qual torcia e entrou no ônibus ainda um pouco esbaforido. Desceu na velha quadra, cruzou a avenida depois subiu as escadas como uma bala. Abriu a porta, foi pro quarto e pegou o menor nas mãos, enquanto o do meio dormia e foi pra sala. Ligou o radio ao som do amanhecer que era brutal como um dia de chuva. Sabia que não era gentil, mas era seu jeito de ser. Era mesmo atrapalhado e meio louco, e vivia correndo, mas de certa forma quilo sempre fizera sentido em sua vida. Com a direita virou a fralda e agradeceu por não estar suja de merda e com a esquerda, molhou o polegar e enfiou no ouvido mais velho contando uma piada. Ele acorda bem, graças a deus, tem um ótimo humor, bem diferente do dele. O do meio resmunga e ele vai até o berço enquanto o menor brinca com um carro destruindo a sala como um tsunami. Em 15 minutos esta tudo pronto e agora eles descem as escadas amontoados em seus braços que graças a deus são fortes ainda. Por fim, todos de pé como numa parada de 7 de setembro mas um pouco tortos. Só então ele percebe uma mancha de danone na manga do menor, um filete de pasta de dente no queixo do mais velho e uma forma indizível de leite na boca do do meio que ele limpa com uma das mãos com certo orgulho. Uma careta estúpida, uma brincadeira a mais e eles riem e ele saca que dessa vez venceu. A perua segue pele rua carregando seu orgulho, seu futuro e seus sonhos. Ele sobe as escadas, acende um cigarro e simplesmente dorme torto no sofá, rezando por uma sorte bem diferente da dele para seus guris.
Blake odiava aquilo mais que câncer, mas era necessário pra sobrevivência das espécie então, foi até o prédio no centro, entrou no tocadouro, calçou as botas pegou todas as malditas quinquilharias necessárias e foi pra fila. Aquilo era o mais difícil de tudo, lidar com aquele povo. Nunca encontrara seu lugar entre a maioria deles e, naquela data era ainda pior. Viu seu parceiro e agradeceu a Deus por ele ser uma das poucas boas pessoas ali naquele recinto. Seu nome era Jermaine Philips, o famoso JP. Era um cara bacana, sabia jogar poker bem, não bebia nem fumava e era pai, acima de tudo um bom pai. Era um cara esperto criado nas ruas e que fazia as idéias fluírem com naturalidade. -E ai Blake? Tranqüilo? -Vamos nessa cara, não suporto esse lugar. -Nem eu. Entraram no carro e Jermaine dirigia. Chovia fino e logo foram chamados pra uma situação estúpida, mas que dava tempo pra papear numa boa. -E ai Blake? Ainda baixando muita putaria? -Muita. Acho que essa porra é um vicio, como o cigarro e a bebida. -Eu parei. -De novo? -Dessa vez é pra valer...To indo até pra igreja. -Putz! Bom cara, isso é uma coisa boa mas nunca consegui seguir. -Acredito nisso. O telefone tocou e Blake respondeu com a voz calma. -Hei J.! O Six Head ta enfiado num buraco. Vamos pra lá. O carro foi numa velocidade tranqüila espirrando água pros lados na noite chuvosa. Pararam em frente a um grande portão de ferro. Blake desceu, abriu o portão e depois sentaram pra comer. -E ai Six head! Como é que você veio parar aqui? -Foi o Mattersson...Aquele cara é mesmo um filho da puta. -E dos grandes.Hey J.! Pega uma aqui! Enquanto comiam, Mattersson chegou. Mattersson era um merda. Um grande cocô de cachorro rolando pela enxurrada mas ganhara um posto de chefia e agora comandava todo o setor. Entrou na sala onde eles se encontravam. Entrou se esgueirando feito uma cobra, rastejando como um verme. -Vocês estão em qual setor? -No 6 Mattersson. -MAS AQUI É O 4!! -É. -Bom Blake...Você sabe que é errado e pode acarretar numa sanção... -Também sei que é errado levar parente bêbado de chefe pra casa mas quando eles MANDAM a gente acaba fazendo. -É... Mas... Mattersson engolia as palavras como se sua boca estivesse cheia de mariposas mortas. -Olha Blake eu poderia... -Ah! Vá se foder! Mattersson era um merda.Sabia que tinha dado bola fora e não era um tipo valente. Engoliu as palavras como se fosse um chiclete de merda e depois, virou-se e saiu andando na chuva. -Ele é mesmo um merda Blake. -Eu sei Head... Sei mesmo. Depois Blake e J saíram. Durante a noite lhes encheram o saco mais algumas vezes. Quando a calma se estabeleceu, fichas de poker corriam sobre a mesa. -Sabe J. você falou sobre a igreja...Deus pra mim é esperança...Uma esperança que as coisas melhorem mesmo quando ta tudo fodido. -E O diabo? -O diabo é um medo, uma barreira pra gente, às vezes, não fazer o que quer...Tipo espancar um panaca como o Mattersson até a morte. Hahah Trinca com seu nome! -Isso foi roubo Blake! -Não chora J! J. Ganhou mais duas blake uma e eles resolveram mais uns problemas enquanto a cidade dormia numa noite se sexta.
Estava sentado de samba-canção ouvindo musica quando a campainha tocou. Olhei, vi quem era e abri a porta. Ele entrou. -Cliff! E ai cara? -Tranqüilo! Como vai Barney? -Levando. Passei no Mikey’s e trouxe isso aqui. Tem lugar pra guardar? -Claro. Segue à esquerda terceira porta. Barney era um cara legal. Falava pouco e quando falava ia direto ao ponto sem rodeios, tipo um tiro de sniper. Bebia como o diabo, mas raramente vomitava no chão ou fazia coisa assim. Um bom parceiro. Saiu da cozinha trazendo duas latas e arremessou uma pra mim. -Ta levando uma vida boa hein cara? -Bom, enquanto me esquecerem aqui as coisas ficam mais aceitáveis.E tu? Ta de volta ou só por hoje? -To de volta. E alias to “Sem teto”. -Diabos homem!!! Minha terra é sua terra. Pode chegar e ficar. A porta abriu e Tony G. entrou. -Ah! A velha confraria se reúne! Pega uma lá na geladeira Tony. -Parei de beber nigga! -Conta outra. Tony foi à cozinha e voltou com uma lata na mão. Levantei e fui preparar um “whiskey sour”. -Caralho nigga! Que merda é essa? Andando com essa porra desse saco pra fora. -Diabo homem! Aqui a vida é boa. -Ta sabendo da última? -Qual? -A dos caras de preto? -To ligado.Bem... É uma merda intragável mesmo. Barney levantou, deu um trago e disse. -E uma questão de culhão cara! Tem quem tem e tem quem não tem.Por exemplo, tem que ter culhão pra fazer isso aqui cara! Pra gente parece coisa normal, mas pra muitos caras ai isso é algo impensável. Tony deu um gole no Sour, e resmungou. -Talvez seja por grana. Mas eu bem mandei uns deles à merda dias atrás. Quando vejo tipos como esses sinto com se me estivessem dando um chute nas tripas. -Bem, um deles veio conversar esses dias comigo. Papo furado do puro... É mesmo uma questão de culhão cara e por mais que viesse uma boa grana e diabos homem! Deus sabe o quanto eu preciso de uma boa grana eu não daria meus culhões assim. -Pode crer Cliff! Aposto que sim e é por isso que aqui é um canto bacana. Alias, acertou a mão no sour hein? -Anos de pratica meu velho. A noite seguiu longa e escura e a musica tocava no radio e ainda havia risadas por ali. Mesmo abaixo da fuligem e das culhões esmagados e vendidos por sonhos de grandeza ainda era possível ouvir os copos tilintando e brindado a vida ou o que sobrara dela. Tim tim
Blake acordou com uma ressaca dos infernos e com gosto de vinho barato na boca, olhou pro lado e a viu ali deitada. Já não era mais a mesma coisa de alguns anos atrás, mas ainda tinha uma boa porção de rabo. Ele cutucou-a com o dedão da mão direita, depois, foi chegando a calcinha pro lado. Encostou a cabeça do pau na entrada e ela se mexeu pro lado. O pau ralou no fino tecido. Ele se virou, levantou e foi escovar os dentes... Betty estava deitada e ouvia ele roncando a noite. Meu deus!!! Como poderia ela estar junto dele há tanto tempo? Já não era mais suportável o seu ronco que mais lembrava o motor de um velho dodge engasgando gasolina. Não suportava mais seus olhos, sua fala sempre rude, o barulho maldito das teclas do computador enquanto ele digitava seus textos.A idéia das cerdas da escova em seus dentes era algo que lhe causava náuseas. Sentiu quando ele chegou sua calcinha pro lado.Tempos atrás aquilo seria uma coisa gostosa, mas hoje...Era simplesmente insuportável a idéia de uma foda. Blake foi à janela e fitou o Sol. Depois voltou pro quarto, viu os guris deitados dormindo. Sorriu. Vê-los era com ver cavalos selvagens cavalgando em campos cobertos de neve. Uma sensação incrivelmente boa. Depois entrou no quarto. Olhou-a deitada...Como as coisas ficaram assim? Diabos! Sabe lá Deus como? Simplesmente ficaram...Ele balançou os trocados no bolso, as chaves e se mandou pro emprego. Um emprego brutal e escroto com um salário ainda mais fodido, mas era necessário. A que as pessoas se submetem quando PRECISAM derruba todas as normas de etiqueta existentes. Era um perdedor nato, como muitos por ai e sabia disso, mas Ela sempre estava lá pra lembrá-lo. Sentiu sua alma embriagada de vinho mais triste que todas as árvores de natal cortadas na terra. Ele era só uma engrenagem velha e fodida numa maquina de mundo louco. Betty continuou deitada e ouviu quando os trocados chacoalharam em seu bolso. Sentiu a cama dobrar-se e ceder ante seu peso paquidérmico.Manteve-se de olhos fechados rezando pra que ele fosse embora e simplesmente NUNCA mais voltasse. Ele queria apenas fugir. Ela ouviu a porta se abrir, o pigarrear grotesco e gutural, o som das chaves e a porta se fechando. Depois foi o quarto escuro e o silêncio.
Saltei do ônibus, cruzei a avenida e já estava suando quando adentrei a loja de departamentos. O lugar como em todos os sábados do ano estava LOTADO. Detesto aglomerações de pessoas. Consumidores são ainda piores. É claro que ali no meio havia muitos rabos proveitosos, mas mesmo assim não era possível ficar teso ao olhar. A corrida desenfreada em busca de objetos, desejos e presentes deixava a massa humana ainda mais cega que de costume. Elas só se atropelavam e acotovelavam-se intensamente. Consegui chegar às escadas rolantes e subi. O segundo andar era um pouco mais calmo. O setor de brinquedos era o lugar onde as crianças tinham alguma CHANCE. Por mais que digamos que as crianças sejam a pureza isso é mentira. Elas são a forma mais carente de vida que existe porém, são felizes por não saberem disso. Medem menos de um metro e meio, sem passaporte, sem rg, obrigadas a se vestirem, agirem e pensarem como nós adultos que já estamos com as almas mordidas e rasgadas. Olhei o vendedor. Parecia ser um cara bacana.Resignado pelo maldito emprego que ele era obrigado a manter para sustentar a familia. Ele me indicou um troço bem bacana. Era bem melhor que eu imaginava e realmente muitos mangos mais barato. Desci as escadas e me embrenhei junto à massa humana novamente.Filas e mais filas, longas como centopéias egípcias, rolando lentamente como alfaces sobre uma folha de alface. Me ajeitei atrás de uma morena rabuda e fiquei aguardando olhando pro rabo dela ree pras coxas revestidas de nylon fino. Cheguei finalmente ao caixa. Era uma baixinha burra com a face brutalizada por novelas, reality shows e sonhos vendidos por emissoras de tv. Depois de quase 10 minutos ela conseguiu passar meu cartão e efetivar minha compra. Sai pra avenida, pulei dentro do ônibus e fui pro trabalho. Mais doze horas de inferno. O domingo chegou e enfim, o esforço de quebrar pedras finalmente se vê compensado em estrada. O embrulho se rasga freneticamente e ele sorri o mais puro dos sorrisos. Uma verdade única expressada nos olhos e nos gestos. A vela se acende, as palmas claptam pelo ar e ele assopra... Parabéns pra você e aproveite a vida enquanto ela ainda não te consome.
O ano ainda cheirava a carro novo e eu já esfolava meu rabo trabalhando feito a porcaria de um camelo no Saara logo na primeira semana de janeiro. Mas até que não era tão ruim, pois alem da boa recompensa em grana pra quitar as dividas do natal, que não reclamo, afinal era muito bacana ver a cara dos guris, acabei dando sorte de ter caído num trampo com um cara legal. O nome dele era Sal e era o tipo garotão-bacana-de-praia-bom-moço. Óculos redondos e cara de quem estuda alemão na porra de algum colégio na região de perdizes, mas na real não era nada disso. O cara era um lutador de jiu e poderia arrancar teu braço com um desses golpes malucos ou, fraturar teu crânio com um pontapé, embora eu achasse que isso não seria tão fácil de acontecer, pois ele era mesmo um cara bacana. -você ta ligado né cliff que tem uma porrada de gente que não me curte aqui no trampo. -Olha Sal, eu to ligado é que tem uma cambada de filhos das putas nesse trampo...Eu acho muito normal os caras não curtirem você e ficarem falando merda...Você é um cara comum, tem a mente livre, então pra eles é uma ameaça. Também tem uma pancada de gente lá que não vai com a minha cara, mas pra mim é até melhor assim.São poucos os que não servem apenas pra ser trancados num octógono e serem cobertos de pancada. -Tem cara ali, que é metido a esperto e marrento, mas não sabe de nada. Tomam chapéu de bola parada e acham que tão na vantagem.Me vêem e acham que sou um boyzinho pelo meu estilo. -Pra esses caras você tem que estar sempre de camisa de botão, ouvindo umas musicas cafonas e batendo aqueles papos-furados e sem sentido. Na maioria é gente muito vazia e é raro encontrar gente com algo de bom. Mas temos que conviver com eles é como o titulo que eu tenho pro livro que um dia hei de lançar. -Livro? -É. Tenho um blog e quero fazer um lance de livro um dia. -E Qual é o nome? -O diário de um homem insano o suficiente pra conviver com bestas. -Heheh. Comédia! Passa-me o endereço depois pra eu dar uma olhada. -Pode deixar. Mas fica frio que você não é uma das bestas. Antes de te conhecer já sabia que você era um cara bacana. -Por que? -O Six-Side-Head já tinha trampado contigo e me falou bem ao seu respeito. -Aquele cara é uma figura! Gente boa mesmo. -É sim. -Bom, vamo que vamo que tem mais um round dessa batalha. -One more round! Essa frase é clássica do Balboa. -Só! E assim, assistindo a lutas, bons filmes e bate-papos legais, eu começava mais um round no ringue da sobrevivência.